17/06/2013
Na opinião de Miguel Moiteiro Marques:
"Na famosa pintura Escola de Atenas de Rafael, duas figuras dominam pela sua centralidade: Platão, de dedo apontado para a abóboda, e Aristóteles, com a mão aberta a meia altura. Segurando na mão direita a sua Ética a Nicómaco, o gesto de Aristóteles, interpretado por muitos como uma ênfase empírica no particular terreno, é mais do que uma reação ao idealismo do seu mestre. É a defesa da doutrina do meio-termo, da aurea mediocritas, da velha máxima popularizada pela escolástica medieval de que no meio está a virtude.
Meio-Termo, de Rogério Silveira e Sérgio Marçalo, não é um resgate da virtude aristotélica, mas não deixa de poder ser uma pedagogia para a felicidade. Numa sociedade em que não só o Ter [dinheiro, bens, pessoas], mas também o Ser [popular, bem-sucedido, influente] é o norte de miúdos e graúdos, ler um livro para crianças e adultos onde a felicidade pode ser encontrada numa vivência medíocre é uma desconstrução subtil dos valores da ética económica dos tempos modernos.
Estruturado como um álbum de criança, onde imagem e desenho se entrecruzam como legenda um do outro, Meio-Termo desenrola a vivência de uma personagem marcada desde o seu nascimento por ser “Percentil 50”: «Quando eu nasci não era minúsculo nem gigante, era meio-termo, conta a minha mãe». Mas desengane-se quem pensar que encontrará um hino à subserviente regularidade ou à castradora conformidade que conduz, por exemplo, ao conservadorismo atávico dos papéis sociais pré-determinados: a estética de Sérgio Marçalo é incisiva e a escrita de Rogério Silveira sarcástica. Talvez por isso em vez do cor-de-rosa ou do azul-bebé se encontre um cru preto-e-branco.
A eventual ataraxia da figura cujo crescimento acompanhamos é naturalmente humana na sua dimensão individual dentro de um cosmos feito de outras pessoas e em cuja esteira pode sair também a reflexão sobre o princípio da mediocridade humana, isto é, da nossa real importância no universo, nem mais nem menos do que o resto.
Se cada vez há quem seja mais igual do que os outros, o tempo encarregou-se também de tornar a palavra mediocridade mais medíocre do que ela é. Em todo o lado, e sobretudo na janela para o fundo da caverna que é a televisão, a necessidade de ser mais do que a mediocridade é justificação para tudo, desde bonobos fechados numa casa sob a vigilância de câmaras até celebridades endócrinas em saltos para a piscina.
Mas nem tudo é medíocre. Naquilo que verdadeiramente importa, o Amor – amoroso, filial, fraternal – o gesto de Platão até parece ser o comando a seguir, não para fugir de uma falsa realidade rumo à verdade das ideias, mas para tentar ir mais alto naquilo que verdadeiramente vale a pena.
Por tudo isto, Meio-Termo é o livro ideal para miúdos e graúdos lerem a dois, para que as perguntas de quem está nas idades dos porquês façam pensar aqueles que já não perguntam porquê."